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<title><![CDATA[Ensaios Patrimoniais - Dedicado às Ciências Sociais -  - Fotopages.com]]></title>
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<description><![CDATA[Site sobre Ciências Sociais]]></description>
<pubDate>Thu, 17 May 2012 00:08:56 GMT</pubDate>
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<title><![CDATA[]]></title>
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<title><![CDATA[ENSAIOS PATRIMONIAIS EM NOVO ENDEREÇO]]></title>
<description><![CDATA[

O blog ENSAIOS PATRIMONIAIS mudará de endereço. O conteúdo deste site será transferido aos poucos para o novo endereço, que irá trazer os artigos mais recentes.

O endereço está aí, para vocês verificarem: http://ensaiospatrimoniais.blogspot.com

Aguardamos vocês no novo endereço. Abraços.]]></description>
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<pubDate>Sat, 31 Jul 2010 00:00:00 GMT</pubDate>
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<title><![CDATA[Acidente alerta para ação do IPHAN na capital baiana]]></title>
<description><![CDATA[IPHAN REPENSA POLÍTICA PATRIMONIAL EM SALVADOR



Alexandre Figueiredo´

O desabamento de uma casa histórica em Salvador, com uma vítima fatal, despertou mais uma vez a atenção do IPHAN para o problema da preservação do centro histórico na capital baiana. Um casarão localizado na Ladeira da Conceião da Praia, entre a Rua Carlos Gomes, na Cidade Alta, e a Av. Lafaiette Coutinho, na Cidade Baixa, no bairro do Comércio, desabou ao ter a estrutura enfraquecida pelas chuvas - as tempestades tornaram-se mais constantes e rigorosas na Bahia - e causou a morte de uma mulher, além de três homens feridos. O acidente ocorreu na madrugada do último dia 17.

Há dois anos, a 7ª Superintendência Regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) se recusou a adotar políticas de recuperação do centro histórico de Salvador, se baseando na polêmica tese de que os bens tombados não devem sofrer qualquer interferência através de obras ou reformas, sob pena de ser considerada "descaraterização" do patrimônio histórico.

A intransigência quanto à reforma do Centro Histórico de Salvador, manifesta em 2008, só foi voltada atrás quando a UNESCO, órgão das Nações Unidas ligado à Educação e à Cultura, ameaçou retirar da capital baiana o título de Patrimônio Histórico da Humanidade. O alerta fez o IPHAN baiano rever suas posições, e o casarão localizado na Barroquinha teve que trocar o comando da superintendência, substituindo um jovem servidor pelo professor Carlos Antônio Amorim, que redirecionará a instituição para políticas eficazes pela preservação e, se preciso, pela recuperação do Centro Histórico de Salvador.

A situação do Centro Histórico de Salvador já foi analisada por Lia Motta, quando a reforma feita durante o auge da política carlista - eram os tempos de Antônio Carlos Magalhães no governo da Bahia, com reflexos na Prefeitura de Salvador. Embora significativas, as reformas do Centro Histórico de Salvador seguiram a perspectiva das paisagens de consumo, e a região do Pelourinho foi reformada sem que sua população tradicional fosse consultada ou mantida no lugar, sendo ela deslocada para o subúrbio, enquanto as antigas residências serviam para o comércio local.

Não bastasse isso, a reforma nem sempre foi completa e, nos últimos anos, vários problemas na área aconteceram, sobretudo quando o desabamento de algumas casas na altura da Ladeira do Taboão bloquearam a área, principal acesso de pedestres do Comércio para a Cidade Alta.

Por isso, pensar a situação do patrimônio histórico de Salvador terá que passar por um novo enfoque, equilibrando finalidades sociais, necessidade de recuperação de prédios em ruínas, e de criar um corredor cultural ligando Liberdade, Barbalho, Praça da Sé, Nazaré, Campo Grande, Barroquinha e Comércio. Até agora tudo está em desnecessárias discussões de viabilidade, mas o corredor cultural em Salvador é uma necessidade para revitalizar o Centro Histórico, mas se nem todos os elevados de ligação entre as Cidades Alta e Baixa funcionam, fica complicado.

Repensar a política patrimonial em Salvador é uma necessidade para fazer a história da capital baiana estabelecer um verdadeiro diálogo com a comunidade.

FONTES: A Tarde, Blog Sidney Rezende, Revista Museu, Tribunal Regional Federal (Bahia).

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

MOTTA, Lia. A apropriação do patrimônio urbano: do estético estilístico nacional ao consumo visual global. In: ARANTES, Antônio A. O espaço da diferença. Campinas: Papirus, 2000. ]]></description>
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<pubDate>Sun, 18 Jul 2010 00:00:00 GMT</pubDate>
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<title><![CDATA[Países do Mercosul atuarão juntos pelo patrimônio]]></title>
<description><![CDATA[MERCOSUL DEFINE POLÍTICA INTEGRADA DE PATRIMÔNIO



PONTE JAGUARÃO-RIO BRANCO, NA FRONTEIRA ENTRE O BRASIL E URUGUAI, SERÁ UM DOS LOCAIS ESTUDADOS PARA POLÍTICAS INTEGRADAS

Alexandre Figueiredo

Realizada no mês passado, a III Reunião da Comissão de Patrimônio Cultural do Mercosul, estabeleceu uma política integrada dos países-membros para preservação e proteção de seus respectivos patrimÔnios culturais. Ocorrida em Buenos Aires, o encontro, além da Argentina, envolve também Bolívia, Brasil, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.

Segundo o secretário de cultura da Argentina, Alberto Petrina, a reunião tem uma importância estratégica para acelerar os processos de integração regional, com diretrizes que permitam a proteção dos patrimônios culturais de seus países. Uma das decisões estabelecidas no evento está na indicação, por cada país, de um representante a fazer parte dos núcleos focais da Comissão de Patrimônio Cultural.

A reunião decidiu também que será realizado no Brasil um seminário que discutirá as políticas de desenvolvimento de itinerários culturais, seja nas regiões ou cidades, como forma de valorizar os patrimônios culturais como um todo, como uma expressão geral de uma localidade. Em parte, o assunto ganhou um adiantamento referente à III Reunião, quando foi retomado o Projeto de Itinerário Cultural da Região das Missões Jesuíticas Guaranis. O assunto foi retomado no último dia 21, às vésperas do encontro da Comissão, para assim apresentar na reunião os encaminhamentos dados, reconsiderando a participação da Bolívia no projeto. 

Também foi decidido que será realizada uma reunião técnica na Bolívia, ainda neste ano, de forma que os resultados a serem obtidos sejam apresentados em conjunto na próxima reunião do Mercosul, a que será realizada no Brasil. Em relação ao Universo Cultural Guarani, a Comissão de Patrimônio Cultural do Mercosul decidiu apoiar os acordos feitos, dentro dos critérios estabelecidos pelo CRESPIAL (Centro Regional para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial da América Latina), definindo juntamente com os representantes de cada país a instituição e o responsável pelo projeto.

Quanto ao tráfico ilegal de bens culturais, um dos maiores desafios das políticas patrimoniais, o encontro apoiou as recomendações acertadas durante o encontro regional sobre medidas jurídicas e administrativas a serem feitas para a prevenção do tráfico na América Latina. Para isso, o encontro definiu pelo desenvolvimento de uma rede internacional de informação técnica para o combate e a prevenção do tráfico ilegal dos bens culturais. Cada país do Mercosul produzirá seu respectivo informe sobre o assunto, para que possa, na reunião de junho de 2011, propor medidas conjuntas e planos de trabalho voltados para a capacitação do setor. Esse projeto de trabalho poderá ser implementado pelo Centro Regional de Formação para Gestão do Patrimônio, no Rio de Janeiro. 

Na reunião, os países do Mercosul decidiram também pelo desenvolvimento de um estudo envolvendo Brasil e Uruguai, dedicado ao entorno da Ponte Internacional Jaguarão e Rio Branco e suas respectivas localidades em ligação, servindo de ponto de partida para o reconhecimento dos bens culturais, podendo representar um importante avanço para os processos de integração regional para a preservação do patrimônio cultural da humanidade.

FONTE: IPHAN.]]></description>
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<pubDate>Sat, 17 Jul 2010 00:00:00 GMT</pubDate>
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<title><![CDATA[Lugares sagrados do Alto-Xingu são tombados pelo IPHAN]]></title>
<description><![CDATA[COMUNIDADES INDÍGENAS DO ALTO-XINGU SÃO PATRIMÔNIO CULTURAL



Alexandre Figueiredo

As duas localidades situados no Mato Grosso que são considerados pelas tribos indígenas do Alto-Xingu como lugares sagrados tornaram-se patrimônio cultural por iniciativa do IPHAN.

O Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional aprovou há cinco dias, por unanimidade, o pedido de tombamento das localidades de Sagihengu e Kamukuwaká, feito por iniciativa das etnias Waurá, Kalapalo e Kamayurá e reforçado pelos técnicos do IPHAN.

Sagihengu e Kamukuwaká são lugares que fazem parte do Kwarup, a maior festa ritualística realizada pelos povos do Alto-Xingu. Nove etnias que formam seu complexo sócio-cultural participam, de forma compartilhada, dos rituais. Todavia, as duas áreas ainda estão fora do território demarcado pelo Governo do Parque Nacional do Xingu.

Observando essa limitação, os grupos indígenas formularam, em 2008, um pedido para o IPHAN de transformação da área em patrimônio cultural, garantindo a conservação e também o acesso da comunidade ao local. Outro objetivo é garantir a preservação de valores culturais, através da transmissão de valores espirituais e religiosos tradicionais entre os indígenas e que são transmitidos e expressos através desses rituais.

De acordo com o representante dos 14 povos indígenas do alto-Xingu, Ianacolá Rodarte, índio da etnia Kamayurá, afirma que a festa do Kwarup é vital para a existência da comunidade e que os lugares sagrados de Sagihengu e Kamukuwaká podem exercer também uma importância de monumentos não-indígenas, como um meio dos leigos reconhecerem o valor histórico, social e cultural dos povos indígenas do Alto-Xingu. "Estes lugares tem a mesma relevância para nós, quanto os lugares sagrados de outros povos como Meca, Jerusalém, Cristo Redentor, etc.", afirmou Ianacolá.

Os limites originais do Parque Nacional do Xingu foram reduzidos e sua área é menor que o território original da ocupação indígena. Boa parte da área das nascentes do Rio Xingu foram ocupadas por pólos agropecuários, restringindo o território atual numa área de 30 mil km². Nesse território, vivem 14 povos indígenas, espacialmente divididos entre povos do alto, do médio e do baixo Xingu.

Durante o processo de avaliação para o tombamento, foi realizada intensa pesquisa, já dois anos antes do pedido de tombamento de Sagihengu e Kamukuwaká. Durante esse trabalho, os técnicos do IPHAN realizaram registros textuais, fotográficos e videográficos, como meio de desenvolver e sistematizar uma documentação que seja capaz de apresentar dados sobre o objeto estudado, que envolve valores de patrimônio material e imaterial.

Para a diretora do Centro Nacional de Arqueologia do IPHAN, Maria Clara Migliacio, o tombamento dos lugares sagrados representa, além da ampliação das perspectivas de atuação do Patrimônio Histórico junto aos povos indígenas, como reafirma a ampliação do interesse do instituto por bens culturais que ainda não foram devidamente considerados dentro de 73 anos de existência. Ela acrescentou que esse novo interesse se encontra em acordo com os novos paradigmas mundiais de preservação do patrimônio histórico e cultural da humanidade.

Apesar dos povos do Alto-Xingu fazerem parte de diferentes etnias, eles compartilham uma unidade sócio-cultural muito expressiva. A unidade se expressa através dos mitos, ritos, cerimônias, um sistema de trocas de bens materiais e especialidades artesanais que manifestam um sentimento comum de identidade e pertencimento cultural.

Um dos mais expressivos eventos de reunião dessas etnias é a festa do Kwarup. É uma festa ritual que celebra um novo ciclo para a comunidade, celebrada à memória póstuma de chefes e líderes, a transição do luto e da tristeza para um tempo de renovação espiritual através da alegria, e acontece normalmente no mês final da estação seca na região, que é agosto e, às vezes, setembro. A aldeia que perdeu o parente homenageado torna-se "dona" da festa, responsável pela alimentação dos convidados para evitar mal-entendidos.

No Kwarup, Sagihengu é considerado o lugar de início das cerimônias, e onde as comunidades indígenas afirmam ter acontecido o Primeiro Kwarup em homenagem a uma mulher, que teria sido uma matriarca ancestral. É o lugar onde se encontra remédio para ter saúde e vida longa, além de renovar o espírito.

Já o abrigo rochoso Kamukuwaká é o sepulcro, lugar de vida e morte, lugar de prisão e sepulcro, mas também de renascimento. Seu nome é homenagem a um antigo cacique, ali sepultado junto aos parentes. Segundo sua crença, essa família teria sido castigada pelo Sol, invejoso de sua beleza, e Kamukuwaká tornou-se ancestral dos povos Waurá. No local ocorre o ritual chamado furacão de orelhas, que celebra a transição entre o menino e o homem adulto.

Os dois lugares foram mapeados entre 2005 e 2008 por um programa de pesquisa do Patrimônio Cultural, de caráter interdisciplinar que envolveu universidades locais e contou com a colaboração dos próprios povos indígenas. O projeto de apoio para as áreas de Sagihengu e Kamukuwaká foi inscrito no Prêmio Rodrigo Melo Franco foi inscrito na categoria apoio institucional e saiu vencedor em 2008, o que permitiu estabelecer recursos para o tombamento dos lugares sagrados.

FONTE: IPHAN.]]></description>
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<pubDate>Tue, 29 Jun 2010 00:00:00 GMT</pubDate>
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<item>
<title><![CDATA[Ídolos popularescos cresceram sob ajuda da Rede Globo]]></title>
<description><![CDATA[REDE GLOBO E A MÚSICA BREGA-POPULARESCA



Alexandre Figueiredo

Poucas pessoas entendem, mas a hegemonia da música brega-popularesca, o milionário mercado da mediocridade musical herdada da música brega dos anos 70, foi favorecida pelos mecanismos das relações entre mídia e poder desde a ditadura militar. Apesar de haver muitos defensores se esforçando em desmentir essa influência, alegando que a mediocridade musical dominante nas rádios e TVs de nosso país resultam numa "nova forma de cultura popular", supostamente sem a influência de qualquer veículo da grande mídia, a verdade é que a música brega-popularesca - a suposta "música popular" das rádios mais ouvidas no país - nada seria se não fossem os conchavos entre a grande mídia, sobretudo a Rede Globo de Televisão, e o poder político que ela respaldou nos últimos anos.

Historicamente, a música brega-popularesca se iniciou a partir de rádios AM interioranas e de gravadoras como Odeon, Copacabana e Continental-Chantecler desde meados dos anos 60, e, na década de 70, através de emissoras de televisão como Tupi, Record, TV Studios e Bandeirantes, além de apresentadores como Sílvio Santos, Raul Gil e Edson "Bolinha" Curi. Ao longo dos anos 70 e 80, esse era o cenário da música brega, respaldado por emissoras de televisão com audiência mediana e voltada para as classes C, D e E da estratificação sócio-econômica oficial.

Mas, ainda nos anos 80, e sobretudo depois de 1985, a transformação da música brega num mercado hegemônico que ameaça a sobrevida da própria MPB - convertida num filão cada vez mais marginalizado - não se deveu por suposta "revisão" estética nem intelectual da cultura popular, nem por uma pretensamente inocente assimilação das "modernas" lições da cultura pop internacional, mas, muito antes, por fatos político-midiáticos que favoreceram o crescimento de um tipo de mídia popularesca que, antes dedicada a prostíbulos e botequins rurais, hoje procura ingressar, de preferência pelas portas da frente, até mesmo nos lares mais abastados e nas universidades de todo o Brasil.

DIVULGAÇÃO NADA INOCENTE - Faz sentido realmente que a mediocridade musical, de cantores que mal sabem direito o que é a verdadeira música caipira, o verdadeiro samba, que são influenciados claramente, mas nem sempre de forma assumida, pela música brega dos primórdios, terem seus trabalhos divulgados de forma inocente por redes de supermercados e de eletrodomésticos, de emissoras de TV e rádio FM controladas por grandes grupos de comunicação, de caráter nacional e também regional?

Não, não faz. Que interesse tem divulgar um conjunto de "samba" que se limita a reproduzir caricaturalmente elementos musicais de nomes como Lionel Richie e Manhattans, juntando a isso uma letra de poesia sofrível e instrumentos de samba mal tocados? Ninguém nasce sabendo na vida, mas faz sentido valorizar, até o extremo, a mediocridade musical que aparece bem evidente nas gravações de discos e nas apresentações ao vivo?

No Brasil mitificado como um país inocente, que o moçambicano Ruy Guerra, em letra musicada por Chico Buarque, ironizou com a frase "não existe pecado no lado de baixo do educador", parece ter sentido, sim. Como se, no Brasil das maravilhas, onde até políticos como Paulo Maluf conseguem se reabilitar diante da opinião pública, não existisse grande mídia, não houvesse música comercial, e se vê grande sambista até em quem se limita a rebolar de sunga na praia. Exalta-se a mediocridade musical como uma suposta democracia, como se só por sermos um país tropical vale tudo na vida, a libertinagem, para muitos, rima com o sol e com o céu azul.

Mas até essa visão pode ser tendenciosa. De repente, a própria grande mídia domina e tenta dar a impressão de que não está de forma alguma dominando. Para manter o poder, ela anula a imagem desse poder aos olhos dos seus dominados. Por isso a ideia da grande mídia e do comércio divulgar "inocentemente" a música brega-popularesca esconde o poder que as elites exercem na manipulação da cultura popular.

Afinal, por que não temos mais novos grandes sambistas, grandes violeiros, grandes compositores de música popular fazendo sucesso entre o grande público de forma definitiva? Grandes artistas de qualidade até fazem sucesso, mas fazem o papel de meros coadjuvantes de um mercado dominado pelos ídolos popularescos, aqueles que imitam Lionel Richie em pseudo-sambas, ou que imitam Bee Gees em falsas modas de viola.

BREGA E CONTROLE SOCIAL

Enquanto a música brega permanecia no seu mercado fechado, de emissoras AM, umas poucas FMs popularescas, da TV Bandeirantes e do SBT e do comércio de camelôs, ninguém desconfiava de suas intenções de dominar o país. Tanto que o historiador oficial da música brega-popularesca, Paulo César Araújo, e seu equivalente "moderno", o antropólogo Hermano Vianna, não creditam qualquer manobra tendenciosa envolvendo os ídolos popularescos. Pelo contrário, Paulo César Araújo, numa retórica sedutora, tenta convencer, no melhor esquema "Foi sem querer querendo" do comediante mexicano Chavez, de que a música brega, "sem querer fazer protesto", era "música de protesto". 

A ideia, bastante discutível, de que a música brega foi a "música de protesto" brasileira, venceu pelo sentimentalismo. Mas há muitas falhas, se considerarmos a tese como verídica. Primeiro, como é que uma "música de protesto" pudesse, automaticamente, surgir e desaparecer juntamente com o AI-5 (o ato institucional da ditadura que previa mais censura e repressão), como se acionasse um botão de emergência? Segundo, por que essa "música de protesto" não apareceu junto com as manifestações pela redemocratização do país? Terceiro, por que os ídolos cafonas, tão carinhosamente defendidos por Paulo César Araújo, não conseguiram ser tão adorados quanto os grandes artistas da MPB autêntica (que Araújo jocosamente apelida de MPBzona), se limitando apenas a ser menos atacados?

A música brega foi um instrumento ideológico das elites conservadoras para manobrar culturalmente o povo. A ideologia cafona previa um povo desajeitado, feliz com sua situação de inferioridade, e não é por acaso que os primeiros redutos dos ídolos cafonas foram as zonas rurais, controladas pelo latifúndio, e seus redutos foram os prostíbulos (ambientes de subemprego feminino) e botequins (onde o alcoolismo consolava a revolta resignada dos miseráveis). 

O povo cafona era condenado ao subemprego, ao alcoolismo, à prostituição, ao comércio clandestino, à inferioridade social imposta pelas elites em reação ao crescimento das Ligas Camponesas e às mobilizações sociais expressas pelos sindicatos, pelo catolicismo de esquerda (Teologia da Libertação) e pelo movimento estudantil. Não é coincidência que os primeiros discos de Waldick Soriano tenham surgido na mesma época dos "institutos" IBAD e IPES, na prática os "partidos políticos da burguesia", que condenavam os movimentos sociais e contribuíram para o estabelecimento da ditadura militar para fazer extinguir as conquistas obtidas pelo nacional-trabalhismo e aperfeiçoadas pela mobilização de esquerda, mesmo aquela que discordava do nacional-populismo e do comunismo do "partidão" (PCB).

Por isso mesmo, um povo subordinado e resignado, embora indignado com sua miséria, torna-se fácil para a efetiva dominação das classes dominantes, que tão cedo pensavam em controlar não somente pela via política e econômica, mas também pela via cultural.

O CRESCIMENTO DA REDE GLOBO

A Rede Globo de Televisão foi o principal projeto midiático de sustentação dos grupos de poder representados pela ditadura militar e pela sua base de apoio civil. Surgiu em 1965 como resultado de uma transação ilegal feita desde 1962 com a empresa estrangeira Time-Life, dos EUA.

A princípio sua programação era considerada sofisticada, num tempo em que sofisticada também era a televisão em geral. Mesmo nos primeiros anos da ditadura, a programação seguia um perfil de qualidade que permitiu, por exemplo, que a TV Record de São Paulo transmitisse programas com artistas da MPB autêntica, como Jair Rodrigues, Elis Regina e Wilson Simonal. E a própria Record, como outras emissoras, transmitiam festivais de música brasileira, redutos do que hoje conhecemos como a MPB moderna, uma fusão do requinte melódico da Bossa Nova com o regionalismo engajado dos CPC's da UNE. 

Para se ter uma ideia da fase televisiva da época, os chamados 'quiz shows' incluíram até questões sobre História e filosofia. Falando em filosofia, o prestigiado intelectual Jean-Paul Sartre pôde viver seus momentos de celebridade na tV, quando veio ao Brasil em 1960, cinquenta anos antes de qualquer cidadão inexpressivo tornar-se célebre por tão poucas bobagens.

A Rede Globo herdou o formato vanguardista da TV Excelsior, emissora que começava a ameaçar a pioneira TV Tupi, então líder em audiência na TV. A Globo - inicialmente, a TV Globo do Rio, mas em 1966 a TV Paulista, com Sílvio Santos e tudo, se transformou na atual TV Globo São Paulo - só não assimilou o potencial político-ideológico da emissora de Wallace Simonsen, o dono da Panair que investiu na emissora de TV simbolizada, na propaganda, por um casal de crianças.

Ao longo dos anos 60 e 70, a Rede Globo, sob o comando de profissionais como Walter Clark e José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, entre outros, adotou um estilo de programação ao mesmo tempo popular e sofisticada, e a aliança do empresário Roberto Marinho (que já colaborava no IPES na sua engenhosa campanha para tirar João Goulart do poder) com os militares permitiu que se investisse no crescimento da rede televisiva das Organizações Globo, que atingiu um alcance que o jornal O Globo e a Rádio Globo não conseguiram.

Por isso, ao chegar o final dos anos 70, a Rede Globo já era considerada a líder em audiência televisiva em todo o país. A TV Tupi estava em processo de falência, concluído em 1980. A TV Excelsior já havia sido extinta em 1970. A Rede Record já não estava mais na sua fase áurea dos anos 60, e o SBT engatinhava com as duas afiliadas da TV Studios de Sílvio Santos, no eixo Rio-São Paulo, vitoriosas numa competição de concessões que teve o Grupo Abril e o Jornal do Brasil no páreo.

A BREGALIZAÇÃO DA REDE GLOBO

Foi preciso um contexto de concorrência entre emissoras de TV para que a música brega se expandisse por todo o país. Com a redemocratização do país e com os primeiros escândalos envolvendo a Rede Globo - como o caso Proconsult, das manobras para adulterar o favoritismo de Leonel Brizola para o governo do Rio de Janeiro, e a omissão de seus telejornais em divulgar as campanhas pela redemocratização do país - , as demais concorrentes na televisão, tal qual na imprensa (com o poderio do jornal O Globo desafiado pelos concorrentes jornais paulistas e carioca - o Jornal do Brasil - no âmbito nacional), buscavam acirrar a competição midiática. Certamente, muita gente exagerou, superestimando a cobertura da TV Bandeirantes e da Folha de São Paulo, paradigmas da mídia oposicionista naquela época (1983-1984), nos movimentos pela democratização do país, quando os dois veículos estavam do outro lado, defendendo o golpe militar em 1964.

Com o SBT, Bandeirantes e as AMs e FMs popularescas priorizando a divulgação de cantores e conjuntos bregas e aumentando seu poder de mídia sobre o grande público, as Organizações Globo buscaram sutilmente investir no mesmo filão. No Rio de Janeiro, por exemplo, a rádio 98 FM tirou do ar a Eldorado FM - que, apesar de conhecida como Eldo Pop, era dedicada ao rock clássico - e pôs no lugar uma programação enfatizada no brega romântico.

Mas foi em 1985 que a Rede Globo, contratando a dupla de ex-músicos da Jovem Guarda, Michael Sullivan (ex-Fevers) e Paulo Massadas (ex-Lafaiette & Seu Conjunto), promoveu a expansão da ideologia brega em todo o Brasil, rompendo com os limites das classes C, D e E. Era, todavia, a segunda parte de seu trabalho de controle social, uma vez que, antes, o trabalho era de diluir e pasteurizar a MPB propriamente dita, através de outra dupla, Lincoln Olivetti e Robson Jorge, com base em outra diluição, que foi a do cantor Roberto Carlos que, em 1976, abandonou a boa fase 'soul' para abraçar o brega romântico de vez. Se Roberto Carlos tornou-se o Elvis brasileiro, a Rede Globo tornou-se seu Coronel Parker. Não por acaso, Lincoln, Robson, Michael e Paulo se reuniram para compor "Amor Perfeito", para Roberto Carlos gravar. Parecia uma comemoração pelo trabalho completo de enfraquecimento da música brasileira 'mainstream'.

Sullivan & Massadas recrutaram tanto cantores bregas como José Augusto (da geração pós-Odair José de Fernando Mendes, Sílvio Brito e Nahim) e não-cantores como Xuxa quanto medalhões da MPB contratados pela RCA-Victor (então tendo outro ex-Fevers como diretor-artístico, Miguel Plopschi), como Alcione, Roupa Nova e Fagner, para seu esquema de juntar a MPB pasteurizada pelo padrão Olivetti-Jorge com o projeto de transformar a música brega setentista numa pretensa "cultura superior". 

A influência de Sullivan & Massadas, no entanto, se estenderia até mesmo fora da RCA, em artistas como Rosana Fiengo (que nos anos 70 fazia 'soul music' e se consagrou nos anos 80 pelo sucesso "Como uma Deusa"), e Simone. Esta última, aliás, foi o símbolo da pasteurização da MPB em discos grandiloquentes, superproduzidos, com excesso de baladas românticas comercialmente calculadas, e no fim dos anos 80 chegou a gravar a própria dupla Sullivan & Massadas e uma outra música do "pupilo" deles, José Augusto.

O resultado disso tudo influenciaria decisivamente a geração neo-brega dos anos 90 em diante, sobretudo através de Alexandre Pires (desde seus tempos no Só Pra Contrariar), Leandro & Leonardo, João Paulo & Daniel, Exaltasamba, Negritude Júnior e muitos outros.

O maior reduto da música neo-brega - filha por inseminação do brega setentista com a MPB pasteurizada - foi o programa Domingão do Faustão. Criado em 1989 para preencher o nicho de entretenimento deixado vago depois da morte de Chacrinha, foi resultado da contratação do ex-apresentador da TV Bandeirantes, Fausto Silva. 

A princípio, o Domingão herdaria o vanguardismo do programa Perdidos da Noite (que Faustão apresentou na Record e na Band), e chegou até a receber o cantor Raul Seixas no final de sua vida (então lançando o disco em parceria com Marcelo Nova). Mas o programa não tardou a ser o Olimpo dos ídolos neo-bregas, que praticamente faziam rodízio para aparecer semanalmente no programa, determinando o gosto cultural da classe média e das classes populares.

GLOBO, POLÍTICA E BREGA: TUDO A VER

No entanto, pouco antes de Fausto Silva animar as tardes dominicais brasileiras, um fato político e midiático contribuiu decisivamente para a expansão do brega-popularesco e para a multiplicação de tendências derivadas da música brega - sobretudo os neo-bregas que simbolizam uma falsa MPB - , a princípio como modismos isolados, que a crítica definia como "monocultura", e, depois, juntas, são relançadas sob o pretenso rótulo de "diversidade cultural".

Em 1985, o então presidente da República, José Sarney, e seu ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães, promoveram um esquema de concessões de rádio e TV baseado no clientelismo, bem à maneira dos antigos "coronéis". Os dois tornaram-se conhecidos por liderar oligarquias em seus Estados de origem, Sarney no Maranhão e Magalhães na Bahia. Ambos, também, eram originários da UDN, o temível partido conservador que, aparentemente extinto, teve seu projeto político herdado fielmente por sucessivos partidos (ARENA, PDS, PFL e DEM).

Sarney e Magalhães praticamente desenharam o quadro da mídia radiofônica e televisiva dos anos 90 em diante, concedendo emissoras para aliados. Juntamente à farra de concessões, Magalhães ainda fez transações com Roberto Marinho com a empresa de telecomunicações NEC e também com a mudança de representação das Organizações Globo na Bahia, transferida do Grupo Aratu, de Joaci Góes, para a futura Rede Bahia, dos familiares de Antônio Carlos Magalhães.

A farra de concessões é subestimada por muitos críticos, que acreditam ela ter se limitado a deputados interioranos ou de regiões como Norte e Nordeste, da mesma forma que creem que o episódio está há muito superado. No entanto, a farra de concessões envolveu grandes políticos e mesmo empresários "independentes" e "idôneos", e seus reflexos continuam até hoje.

As concessões fizeram multiplicar a quantidade de emissoras FM popularescas, a ponto de todo um cenário brega-popularesco se multiplicar e se estabilizar, sob amplo apoio da Rede Globo e das oligarquias regionais que, não obstante, patrocinam festivais com ídolos popularescos. 

Desta maneira, a cultura popular dava lugar a uma "cultura" midiatizada, cujos referenciais não eram mais aqueles socialmente compartilhados pela população, mas os referenciais impostos pela programação de apelo populista das emissoras de rádio e TV. Isso já se dava nos primórdios da ideologia brega, mas tornou-se intenso com as articulações de Roberto Marinho, Antônio Carlos Magalhães e José Sarney. Uma aliança que os adeptos e defensores da música brega-popularesca se recusam a admitir, crentes ainda na tese da "inocente" divulgação pela grande mídia, como se isso fosse um acaso.

A influência da Rede Globo é tal que na aparência os ídolos neo-bregas, como Alexandre Pires, Zezé Di Camargo & Luciano, Chitãozinho & Xororó e Chiclete Com Banana, estabeleceram mudanças. Sem representar uma real evolução artística e musical, os ídolos neo-bregas tiveram que mudar no vestuário, 

A ideologia brega representa, assim, uma idealização do povo bem ao sabor etnocêntrico da classe média. Os adeptos do brega reclamam muito de que o "outro" é mal-compreendido, quando eles são os primeiros a distorcer a visão do outro, transformando, neste caso, o povo pobre numa multidão de "bons selvagens", patéticos, caricatos, resignados. Um povo quieto e submisso, medíocre nos seus desejos, crenças e vontades. Medíocre na sua "expressão cultural", estranhamente patrocinada com entusiasmo pelas classes dominantes regionais e nacionais. Mesmo por quem, pessoalmente, não se interessa em apreciar a música brega e outros valores relacionados à cafonice.

CONCLUSÃO

A música brega-popularesca não está acima da mídia, e não representa senão uma "cultura de massa" movida pelo poder da grande mídia. Por trás de seus ídolos, há todo um esquema empresarial ligado ao entretenimento, e a grande corporação que simboliza as Organizações Globo, sobretudo através da Rede Globo de Televisão, torna-se a expressão máxima desse esquema.

Omitir o papel da Rede Globo no crescimento da suposta "música popular" que predomina nas emissoras de rádio FM é ignorar a realidade que acontece da forma mais explícita. É ignorar que o sucesso dos ídolos da música brega-popularesca se fortaleceu não pela força do acaso, mas pela ajuda de uma das maiores corporações de mídia do Brasil, sem a qual os mesmos ídolos dificilmente teriam a mesma projeção hegemônica no mercado do entretenimento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CASTRO, Ruy. A música brasileira tem um passado. Mas terá futuro? In: Caderno 2. O Estado de São Paulo. São Paulo: 07 de junho de 1999. 
COELHO, Teixeira. O que é indústria cultural.. Série Primeiros Passos. São Paulo: Brasiliense, 1999. 
DIAS, Mauro. "Um massacre cultural sem precedentes". In: O Estado de São Paulo. São Paulo, 07 de junho de 1999. HERZ, Daniel. A História Secreta da Rede Globo. Porto Alegre: Tchê, 1987.
PIRES, Luciano. Brasileiros Pocotó. São Paulo: Panda Books, 2004.
SODRÉ, Muniz. A comunicação do grotesco. 10.ed. Petrópolis, Vozes, 1985.
TAME, David. O poder oculto da música. Tradução Octavio Mendes Cajado. São Paulo: Cultrix, 1997.
TINHORÃO, José Ramos. Música popular: um tema em debate. 3.ed. São Paulo: Editora 34, 1997. 
ZEGAIB, Aniz Tadeu. Central da Periferia: o declínio do povo brasileiro.. Extraído do endereço http://www.observatoriodaimprensa.com.br. Publicado em 10 de abril de 2006. Consultado em 30 de abril de 2006.  ]]></description>
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<pubDate>Mon, 14 Jun 2010 00:00:00 GMT</pubDate>
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<title><![CDATA[Fechamento de avenida carioca causará problemas]]></title>
<description><![CDATA[O GRAVE ERRO DE FECHAR A AV. RIO BRANCO PARA CARROS

Alexandre Figueiredo

Muitos dos piores erros só são reconhecidos tardiamente. No calor do momento, a imprudência e imprevidência humanas não conseguem perceber os malefícios de dadas decisões, e muitos erros gravíssimos, de consequências funestas, aparecem sob a máscara de atitudes acertadas, seja por ignorância, seja por interesses restritos a determinados indivíduos ou grupos.

O que o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, pretende fazer, certamente, irá marcá-lo negativamente no futuro. O absurdo fechamento da centenária avenida Rio Branco, fatalmente, causará transtornos futuros para os cariocas, principalmente para o trânsito, que ficará cada vez mais caótico.


AV. RIO BRANCO EM 1905, QUANDO SE CHAMAVA AV. CENTRAL.

Mas até para manifestações sócio-políticas seria complicado. É verdade que a Praça Floriano será preservada para manifestações, da forma como elas ocorrem hoje, mas uma passeata como a que foi a Passeata dos Cem Mil, um dos maiores protestos contra a ditadura militar, realizado em 26 de junho de 1968, não chegariam a ocorrer de forma eficaz por causa das barricadas que, na prática, seriam os canteiros e outros obstáculos similares ao que vemos na Rua Uruguaiana. Uma coisa é desafiar os carros e ônibus num momento de indignação política. Outra coisa é ser desafiado por obstáculos fixos na trajetória natural de seu protesto.

Eduardo Paes é relativamente jovem como político. Com 40 anos, não tem a vivência histórica para perceber o grave risco que faz ao querer transformar a Rio Branco num grande calçadão. Eu, apesar de ser um ano mais novo que ele, pois tenho 39 anos, tenho os pés no chão e sei do valor histórico e social dos lugares e monumentos.

É verdade que a avenida, quando foi inaugurada em 1905 pelo prefeito Francisco Pereira Passos, causou um violento impacto na população carioca de então, na medida em que foi uma larga rua que pôs abaixo uma porção de residências e estabelecimentos comerciais. Mas, descontadas as limitações de interesse no planejamento urbano e no justo deslocamento da população para outros locais, a avenida representou um desenho moderno na arquitetura urbana da cidade. O mesmo se pode dizer da avenida Presidente Vargas.


PRAÇA FLORIANO, ESQUINA DA AVENIDA COM A RUA EVARISTO DA VEIGA

Mas hoje, a ideologia das "paisagens de consumo" alertada pela arquiteta Lia Motta, a partir da ideia da competição internacional das capitais turísticas do mundo, faz o Rio de Janeiro ser vítima de todo um projeto arquitetônico falsamente preciosista, falsamente histórico, com praças copiadas de Madrid, Roma e Paris. Verdadeiros desertos de mármore, bruscamente erguidos sobre praças e logradouros que até foram alterados com o decorrer do tempo, mas pelo menos foi pela natural evolução da sociedade.

A avenida Alfred Agache estava caótica, até meados dos anos 90. Mas eu mesmo pude conferir, quando andei várias vezes por lá entre 1974 e 1990, o quanto a avenida falava para nós, como um legítimo ambiente histórico socialmente construído. O grande fluxo de pessoas, os muitos ônibus parados, as praças - ou seja, a Praça 15 dividida, na verdade, em dois trechos, o das Barcas e o contíguo à Rua Primeiro de Março - com pedras portuguesas, tudo isso mostrava uma história, não sem problemas, mas certamente resolúveis sem reformas radicais, mantendo sua finalidade social e sua natural evolução através das multidões.


PLACA ANTIGA DA AVENIDA RIO BRANCO, PRESERVADA NUM PRÉDIO.

Todavia, nos anos 90 a avenida teve seu curso sócio-histórico interrompido, por conta de um projeto de arquitetos espanhóis que transformou a Praça 15 num deserto de mármore, com um canto ocupado por mendigos e converteu a avenida Alfred Agache num escuro túnel, cheirando a urina e expressando insegurança. Isso fez com que a maior parte dos passageiros se mudasse para a Rua Primeiro de Março e também várias linhas de ônibus mudaram o destino da Praça 15 para o Castelo.


SEDE DO IPHAN NO RIO DE JANEIRO FICA NA AVENIDA RIO BRANCO, QUE DEVERIA TER SIDO PRESERVADA PELO INSTITUTO.

TOMBAMENTO PODERIA TER IMPEDIDO REFORMAS NA AV. RIO BRANCO

Determina o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) que o tombamento de um patrimônio desautoriza qualquer reforma brusca que comprometa sua estrutura e suas caraterísticas tradicionais. Os prédios históricos, por exemplo, são proibidos de fazer reformas na sua estrutura interna, apenas sendo permitido fazer reformas internas que no entanto também não comprometam as caraterísticas arquitetônicas originais.

Essa tese de tombamento é polêmica, uma vez que o tombamento também paralisa construções em ruínas, já que elas não se comparam ao acervo arquitetônico da Grécia e Roma antigas, na Europa, cujo valor histórico se deu na preservação de seus prédios como ruínas, sob risco de criar falsificações arqueológicas. Nestes casos, as discussões sobre se a recuperação de sítios históricos seria ou não uma falsificação, uma intervenção que tira o sentido da construção original, parecem intermináveis e controversas, pois ambas as teses possuem uma boa base de justificação.


PASSEATA DOS CEM MIL, REALIZADA EM 1968 NA AV. RIO BRANCO

Mas a tese de tombamento como meio de impedir a intervenção em sítios arquitetônicos teria sido útil para a Avenida Rio Branco, que perdeu uma boa oportunidade de ter virado patrimônio histórico nacional. A avenida foi um dos símbolos da modernização urbana do prefeito Pereira Passos, e em 2005 o célebre logradouro carioca comemorou seu centenário. 

O IPHAN poderia muito bem ter aproveitado a ocasião, talvez com um ou dois anos de antecedência, para efetuar o inventário histórico da avenida, colhendo dados testemunhais, históricos, bibliográficos. Todo o trabalho seria feito até 2005, quando a avenida estaria incluída nos livros de Tombo do IPHAN. Com o tombamento, a avenida não seria autorizada a sofrer reformas bruscas, como a que Eduardo Paes decidiu, que é transformar o logradouro num grande e pretensioso calcadão, colocando os interesses turísticos - com pretexto falsamente ecológico - em detrimento da finalidade social.

CIDADE DE PRIMEIRO MUNDO NÃO SE DEFINE COM PRAÇAS "IMPONENTES"

É uma grande ilusão que deslumbra o prefeito Eduardo Paes, a de que uma cidade de Primeiro Mundo se define por suas praças grandiloquentes, pretensas passarelas da arrogância turística, de um teor falsamente histórico, supostamente ecológico, de um teor colonial caricato e artificial, feito apenas para os passeios de turistas desavisados.

O grande problema não é somente isso. O fechamento da Rio Branco para veículos automotivos representa também um violento desperdício financeiro, que poderia ser aproveitado, isso sim, para medidas mais dignas de Primeiro Mundo, como a despoluição da Baía da Guanabara e do Oceano Atlântico, para a substituição de favelas por casas populares. Isso sim, por trazer qualidade de vida para o povo, seria elevar o Rio de Janeiro para o nível primeiro-mundista sonhado.

Mas se Paes se preocupa mais com equívocos como pintar os ônibus de um mesmo uniforme - variando apenas conforme o tipo de ônibus ou percurso, mas sempre transformando os coletivos na mesmice fardada que já vemos em Curitiba, São Paulo e Belo Horizonte - ou fechar a grande e movimentada avenida Rio Branco, enquanto no caminho entre o Galeão e o Centro do Rio estão gigantescas áreas de favelas, e a Baía da Guanabara mostra uma poluição gritante. Mas Paes, político novato e relativamente inexperiente, talvez tenha que aprender, no futuro, com os erros que se mostrarão mais evidentes e desastrosos no decorrer dos tempos.

FONTE: O KYLOCYCLO (blog) - http://okylocyclo.blogspot.com - , com adaptações feitas pelo autor.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MOTTA, Lia. A apropriação do patrimônio urbano: do estético estilístico nacional ao consumo visual global. In: ARANTES, Antônio A. O espaço da diferença. Campinas: Papirus, 2000.

ZUKIN, Sharon. Paisagens urbanas pós-modernas: mapeando cultura e poder. In: ARANTES, Antônio A. O espaço da diferença. Campinas: Papirus, 2000. ]]></description>
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<pubDate>Thu, 20 May 2010 00:00:00 GMT</pubDate>
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<title><![CDATA[Capital Federal comemora 50 anos]]></title>
<description><![CDATA[HISTÓRIA DE BRASÍLIA



Alexandre Figueiredo

Brasília completa 50 anos. É relativamente uma cidade jovem. Mas seu projeto é muito antigo e desde a colonização do país já se cogitava em criar uma capital no interior do país. No entanto, a primeira capital do Brasil foi Salvador, na Bahia, entre 1578 e 1763, e o Rio de Janeiro, de 1763 a 1960. Cidades litorâneas, pois o litoral era a área mais povoada num país novo, explorado oficialmente a partir de 1500 e certamente não descoberto então, porque o que chegava de estrangeiros à terra nova da América do Sul se perdia no tempo. O Brasil tinha um interior pouco conhecido por seus exploradores, e ainda havia o acordo territorial de Tordesilhas, dividindo o país entre a metade portuguesa e a metade espanhola.

Considera-se, no entanto, que o interesse mais concreto de construir uma capital no interior do Brasil tenha partido do Marquês de Pombal, secretário de Estado da coroa portuguesa (posição equivalente a de primeiro-ministro), na segunda metade do século XVIII. Não existem evidências quanto a essa intenção, no entanto, mas havia a preocupação estratégica de instalar a capital brasileira para o interior, como medida de defesa do território do país.

Todavia, foi o movimento da Inconfidência Mineira que abraçou a causa da mudança de capital do país. A capital seria em Minas Gerais, talvez Vila Rica, mas o movimento não foi adiante, pois seus integrantes foram posteriormente presos e condenados. A essas alturas Rio de Janeiro era a capital do país, para facilitar o trânsito de minerais para o comércio europeu.

Em 1808, o almirante inglês Sidney Smith sugeriu ao rei Dom João VI a transferência da capital do país para o interior, por motivos estratégicos. A ideia também foi defendida pelo jornalista Hipólito da Costa, do Correio Braziliense, em vários de seus artigos a partir de 1813. Na época dos debates da Assembleia Constituinte, José Bonifácio de Andrada e Silva incluiu o projeto da nova capital no interior do país na pauta de reivindicações enviada para a Corte Constituinte em Lisboa, em 1821. Um ano depois, um deputado redigiu um folheto anônimo reivindicando a nova capital, já propondo o nome de Brasília.

Em 1839, o historiador Francisco Adolfo de Varnhagen lançou uma campanha pela nova capital, sugerindo a princípio a cidade mineira de São João Del Rey, mas depois optando pelo Planalto Central. Apesar destas e de outras iniciativas, o projeto de uma nova capital no centro do Brasil não vingou, mesmo com a repercussão do sonho do sacerdote italiano Dom Bosco, em que uma nova capital no centro do Brasil representaria o início de uma nova civilização.

Com o advento da República, a Assembleia Constituinte incluiu na Constituição de 1891 o projeto de criação de uma nova capital, no artigo 3º: "Fica pertencendo à União, no planalto central da República, uma zona de 14.400 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada para nela estabeIecer-se a futura Capital federal".

Para levar adiante o projeto, uma equipe comandada pelo diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, Luís Cruls, foi enviada em 1892 para realizar pesquisas no Planalto Central. Era a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, cujos estudos, que duraram sete meses, resultaram em dois relatórios delimitando, com base na área indicada por Varnhagen, uma área retangular de 90 x 160km, que se tornou conhecida como Retângulo Cruls.

Os relatórios continuam estudos científicos detalhando as condições geográficas, morfológicas, climáticas e topográficas do sítio escolhido, e o Retângulo Cruls passou a ser incluído em todos os mapas brasileiros publicados na República Velha.

As pesquisas de Cruls e sua equipe, no entanto, não deram continuidade, devido à resistência dos parlamentares ao projeto de mudança de capital, reação reforçada com as reformas urbanas realizadas no Rio de Janeiro, sobretudo durante o governo do prefeito Pereira Passos, entre 1902 e 1906.

Na década de 1920 recomeçaram as discussões em torno do Relatório Cruls, retomando a motivação estratégica para a transferência da capital federal para o centro do Brasil. Na década seguinte, em 1933, a Grande Comissão Nacional de Redivisão Territorial e Localização da Capital, sob a presidência do jurista Teixeira de Freitas, recomendou que se ratificasse o disposto na Constituição de 1891 pela Assembleia Constituinte, na elaboração do texto da Constituição de 1934. Mas, em 1937, com a Constituição outorgada naquele ano, por efeito do Estado Novo, a fase ditatorial de Getúlio Vargas, o disposto foi esquecido e excluído do texto constitucional.

Mas o texto reapareceu na Constituição de 1946, que previu também a transformação da então capital, Rio de Janeiro, no Estado da Guanabara. Uma comissão chefiada pelo engenheiro Poli Coelho, ainda em 1946, se dirigiu à área prevista pelo Retângulo Cruls para reconhecer o local. Outra comissão, comandada pelo engenheiro José Pessoa, completou os estudos já realizados e delineou a área da futura capital entre os rios Preto e Descoberto e os paralelos 15º30' e 16º03', abrangendo parte do território de três municípios goianos (Planaltina, Luziânia e Formosa). O parecer foi aprovado.

Em 03 de abril de 1955, no início da campanha eleitoral, o ex-governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek de Oliveira, desceu de avião, diante de chuva, no município goiano de Jataí. No comício realizado, devido ao temporal, num velho galpão, Juscelino afirmou que uma de suas metas era cumprir rigorosamente a Constituição (de 1946), se dispondo depois a ouvir dos presentes os relatos sobre os problemas da nação. Um jovem humilde, Toniquinho da Farmácia, fez, acanhado, uma pergunta que causou forte impacto: "Já que Vossa Excelência está anunciando o propósito de cumprir integralmente a Constituição, queria saber se, eleito fosse, construiria a Capital no Planalto, conforme nela consta?

Juscelino parou por uns segundos, e, paciente, respondeu: "É uma pergunta muito feliz. Não havia pensado, nem os meus assessores, neste problema. Mas vou fazer de sua pergunta o objetivo principal de minha campanha de candidato, e de minha administração, se eu for eleito".


O CATETINHO, SEDE PROVISÓRIA DO GOVERNO FEDERAL, FOI TOMBADO PELO PATRIMÔNIO HISTÓRICO NACIONAL EM 1959.

Pouco depois, o projeto de Brasília foi garantido pelo decreto 38.261, do presidente da República em exercício, o presidente do Congresso Nacional Nereu Ramos, em 09 de dezembro de 1955. O decreto transformou a Comissão de Localização da Nova Capital do Brasil em Comissão de Planejamento da Construção e da Mudança da Capital Federal. Presidido por Ernesto Silva, a nova comissão lançou o concurso para a elaboração do plano piloto de Brasília, em 19 de setembro de 1956.

Foi designado para chefiar o Departamento de Arquitetura e Urbanística o arquiteto Oscar Niemeyer, ao qual coube também a abertura de concurso para a escolha do plano piloto. Com uma comissão julgadora composta por Niemeyer, sir William Halford, Stano Papadaki, André Sive, Luís Hildebrando Horta Barbosa e Paulo Antunes Ribeiro, foi aprovado o projeto elaborado pelo arquiteto Lúcio Costa.

Em 02 de outubro de 1956, o presidente Juscelino Kubitschek assinou o primeiro ato de construção da futura capital numa cerimônia feita em sua área. Nesta cerimônia, em campo aberto, Juscelino declarou em discurso "Deste planalto central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino".

O Governo Federal instalou um prédio provisório para acompanhar as obras, prédio conhecido como Catetinho. O pequeno edifício, no entanto, marcou história e por isso foi tombado pelo DPHAN (atual IPHAN) em 1959 e existe até hoje.

A construção de Brasília não foi fácil. Teve forte oposição política, sobretudo do jornalista e político Carlos Lacerda, que tornou-se enérgico rival do presidente, fazendo comentários agressivos e alegando que a construção de Brasília representava desperdício de dinheiro público.

A origem das cidades-satélites - como são conhecidos os bairros de Brasília - já se deu com as moradias então provisórias dos candangos e seus familiares, vindos de diversas partes do país. Eram trabalhadores que atuavam na elaboração da nova cidade, ou que estableciam o comércio para atender aos operários de construção.

Apesar da oposição política e até de incidentes trágicos - como uma chacina que vitimou trabalhadores em protesto, em 1958 - , além das acusações de corrupção do Governo Federal e da preocupação de que as obras poderiam demorar por tempo indeterminado, a construção da cidade se efetivou dentro do prazo previsto, sendo inaugurada em 21 de abril de 1960.

A nova capital, no entanto, parecia ter nascido em parto prematuro, já que havia problemas de saneamento e energia, a vida sócio-cultural era precária, e parte da vida política nacional ainda funcionava no Rio de Janeiro. Brasília iniciava sua caminhada dessa forma, mas valeu o cumprimento do prazo, porque Kubitschek assim não transferiu a responsabilidade para outro presidente.

Mas os infortúnios políticos fizeram com que apenas na década de 90, com Fernando Henrique Cardoso (que em 1960 era sociólogo e professor universitário), Brasília visse um presidente eleito por voto direto completar todo o mandato, de 1994 a 1998. Isso porque os dois presidentes eleitos por voto direto, Jânio Quadros e Fernando Collor, não puderam completar o mandato e, entre eles, houve o governo do vice de Jânio, João Goulart, deposto com o golpe que gerou a ditadura, e, depois desta, a vitória de Tancredo Neves, eleito indiretamente, doente e depois falecido, passando o governo para o vice José Sarney.

Brasília é considerada Patrimônio Histórico Nacional oficialmente desde 1994.

FONTES: Manchete, Cruzeiro, Wikipedia.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

COUTO, Ronaldo Costa. Brasília Kubitschek de Oliveira. Rio de Janeiro: Record, 2001.]]></description>
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<pubDate>Wed, 21 Apr 2010 00:00:00 GMT</pubDate>
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<item>
<title><![CDATA[Bregas usam rótulo "universitário" para permanecer no mercado]]></title>
<description><![CDATA[BREGA "UNIVERSITÁRIO": CULTURA E EDUCAÇÃO EM CRISE



Alexandre Figueiredo

A chamada música de "sucesso" no Brasil, a música brega-popularesca que simula elementos da cultura brasileira dentro da perspectiva do padrão 'hit-parade' dos EUA, recentemente tem feito vários apelos midiáticos para permanecer na hegemonia do mercado brasileiro, sem medir escrúpulos de tentar ofuscar até mesmo a verdadeira cultura brasileira.

Desta vez, o apelo mais recente está por conta das chamadas tendências "universitárias", bem ao gosto do ex-líder estudantil convertido em político neoliberal, o ex-governador de São Paulo José Serra, iniciando sua campanha para conquistar a presidência da República.

Portanto, sai a pseudo-etnografia do "funk carioca", cuja retórica engenhosa não foi muito convincente, na medida em que o rico discurso em defesa do ritmo se contrastava com o próprio som feito pelo estilo, sobretudo quando se criam imitações de "Egüinha Pocotó" com a mesma batida eletrônica que imita batuque de umbanda, o mesmo som de sirene de acompanhamento e os mesmos MCs vociferando baixarias. A retórica "socializante" do "funk" representou o fisiologismo político seduzindo o idealismo social da intelectualidade, tanto na política petista quanto nas ciências sociais.

Saindo o "funk", que se satisfez com a reserva de mercado conquistada, fixada no público das classes econômicas mais baixas, e não pôde mais avançar adiante, sob pena da retórica intelectual botar tudo a perder, entra então o chamado "brega universitário", bem mais comportado e verossímil, bem apessoado e dotado de um bom esquema de 'marketing', de tecnologia e de técnica.

O principal carro-chefe dessa tendência "universitária" é o "sertanejo universitário", por ser uma forma avançada da diluição da música caipira brasileira, já feita pelas gerações anteriores de breganejo, como Chitãozinho & Xororó, Zezé Di Camargo & Luciano e outros. O próprio breganejo, na prática mais próximo do brega "de raiz" de Waldick Soriano do que da música caipira de Cornélio Pires, puxou a primeira onda hegemônica do brega-popularesco dos anos 90, que resultou no crescimento das tendências derivadas da música brega dos anos 70, várias absorvendo clichês de ritmos regionais, tanto por influência do antigo sambão-jóia - diluição do samba feita em 1970 - quanto pelo sucesso comercial da lambada, em 1989. O sambão-jóia havia voltado, nos anos 90, através da geração do "pagode mauricinho", que, numa diluição ainda mais moderna, definiram o som do sambrega.

Junto ao "sertanejo universitário", vem então os outros ritmos "universitários". Simultaneamente, veio o "pagode universitário", de grupos como Sorriso Maroto e Jeito Moleque, se juntando ao filão aos "sertanejos" Vítor & Léo, João Bosco & Vinícius e César Menotti & Fabiano, entre muitos outros. Há também o "forró universitário", não aquele feito por grupos como Falamansa, que não faziam parte do universo popularesco - como os sambistas do Batifun, um deles filho até de sambista tradicional - , mas o derivado do "forró-brega". Já se fala que nomes como Caviar Com Rapadura, Aviões do Forró ou mesmo a jovem Stephany (que fez uma versão da música de Vanessa Carlton, pondo letra falando sobre um carro da Volkswagen, Cross Fox) representam o "forró universitário".

Mas, para quem não viu a bola de neve crescer, o próprio rótulo "brega universitário" propriamente dito já foi lançado, através do cantor Dário Jeans, claramente influenciado pelo brega mais explícito dos anos 70, sobretudo de Odair José a Sérgio Mallandro. E já se fala em tentar jogar os ritmos bregas regionais, como o arrocha da Bahia, a tchê-music do Rio Grande do Sul e o tecno-brega do Norte brasileiro para os cenários "universitários", para atrair a freguesia jovem mais abastada.

E por que essa denominação de "universitário"? Mudaram-se os tempos ou mudaram-se as coisas? Na verdade, o que mudou foi uma estratégia mercadológica da música brega-popularesca, que iniciou, desde os anos 60, sua escalada de crescimento e diversificação de seus "produtos" - as tendências rítmicas e estilísticas derivadas - , sob forma de transformar a música cafona em algo diversificado e durável, consistindo numa "música popular" feita conforme os interesses dos detentores do poder econômico no país.

A música brega, em toda sua trajetória, expressou sua finalidade de dominar o território brasileiro. Começou nas regiões mais pobres do interior do país, quando o latifúndio determinou que lugar do povo é nos bordéis, nos botecos e no subemprego, vendendo produtos contrabandeados ou piratas. Depois, dos núcleos mais pobres procurou atingir todas as cidades do interior, mesmo nos seus núcleos mais urbanos. Em seguida, alcançou as capitais e grandes cidades do interior e de regiões socialmente mais atrasadas, como Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

Dos anos 80 para cá, a música brega, já fragmentada em várias tendências e estilos, que tendenciosamente imitam, em parte, os ritmos regionais brasileiros, atingiu todos os núcleos rurais e suburbanos do país, no esforço de atingir também o Sul do país. E, dos anos 90 para cá, sua hegemonia tornou-se absoluta nas classes populares, representando um triunfo ao empresariado do entretenimento e aos donos da grande mídia, que praticamente têm a influência do brega-popularesco sobre o povo bem maior do que até mesmo os antigos ritmos folclóricos, hoje condenados a virar artigos de museu.

Agora, então, a manobra dos barões do entretenimento acaba sendo o rótulo "universitário", como uma denominação mercadológica feita para conquistar o público jovem de classe média, algo que os burocratas das pesquisas estatísticas definem como classes B e C, entre 18 e 30 anos. A denominação "universitário" tem também o objetivo de desmobilizar o antigo reduto de jovens rebeldes que transformaram o quadro sócio-político de nosso país.

ANTECEDENTES DA DESMOBILIZAÇÃO DO MOVIMENTO ESTUDANTIL

A origem desse fenômeno, o brega "universitário", está nas manobras dentro do movimento estudantil no período do pós-guerra. Entre 1951 e 1956, com um pequeno intervalo progressista, a União Nacional dos Estudantes foi comandada pelo udenista Paulo Egydio Martins, que momentaneamente transformou a entidade num órgão conservador, apesar de não impedir que os estudantes façam a campanha pela criação da Petrobras e pela defesa do monopólio brasileiro do petróleo.

Depois, com a UNE tendo retomado a postura esquerdista, a direita, com a realização do golpe militar, extinguiu legalmente a entidade, que se tornou clandestina, ao passo que o ministro da Educação Flávio Suplicy de Lacerda, criando um "pacote educacional", propôs uma entidade substituta da UNE e subordinada ao governo militar, além de estabelecer os primeiros pontos do acordo entre o MEC e o USAID, órgão ligado ao Departamento de Estado dos EUA. A ideia era transformar a Educação no Brasil em um processo tecnocrático, subordinado aos princípios do regime militar, totalmente despolitizado e desprovido de motivações sociais, se limitando apenas a resolver os problemas sociais dentro de uma perspectiva que não ameaçasse a estrutura do poder civil e militar da ditadura.

Depois de décadas com a ameaça de privatização das universidades públicas, perigo já anunciado pelo próprio projeto de Suplicy de Lacerda, outra medida foi feita durante os dois governos de Fernando Henrique Cardoso. Veio a proliferação de universidades particulares, em contrapartida ao fim dos cursos profissionalizantes no Brasil. A mentalidade tecnocrática não somente se impôs como seu conteúdo se diluiu na queda de qualidade do ensino superior, transformado num arremedo de ensino secundário. O mercado de trabalho, por isso, se tornou mais exigente e, na prática, os cursos de pós-graduação passaram a ter o verdadeiro status de "ensino superior".

CONFORMISMO JUVENIL - Através disso, a juventude atual também teve sua formação intelectual e ideológica como reflexo destes tempos. Salvo honrosas exceções, a maioria teve pais que viram seus sonhos se dissolverem na ditadura militar e, por isso, reagiram à desilusão dos pais com uma personalidade reacionária, apesar de formalmente rebelde.

Desse modo, o fracasso das mobilizações sócio-culturais do período anterior do Golpe de 1964 se tornam esquecidos. Mas também a própria manipulação dos veículos de comunicação que respaldavam a ditadura militar fez a sua parte. Os idealistas da Contracultura se "transformaram" num estereótipo de hippies chatos, e daí para dizer que os Centros Populares de Cultura, que a UNE realizou entre 1961 e 1964, são iniciativas inúteis, é um pulo.

Na atual apatia juvenil, a cultura se desqualifica. O que se considera como "valor cultural" é uma coisa qualquer nota. Pode ser o jornal populista que não daria um bom mercado para os universitários de Jornalismo, por sua qualidade duvidosa, mas mesmo assim os estudantes vão avidamente estagiar lá, por questão de sobrevivência. É a vulgaridade da televisão aberta, é a futilidade das revistas sobre celebridades, o noticiário deprimindo a opinião pública com a impunidade triunfante de criminosos e corruptos.

O conformismo juvenil aliado ao ceticismo faz os jovens aceitarem o brega-popularesco como "único vestígio possível" de cultura popular. A mediocridade que eles aprenderam com a indiferença dos pais e a inexperiência das babás traduz na adoração até um tanto extrema da mediocridade musical, dos ídolos bregas e neo-bregas e agora de seus sucessores "universitários". Waldick Soriano e Odair José tornaram-se "ancestrais". Alexandre Pires e Zezé Di Camargo tornaram-se os "mestres", e, agora, são os "universitários" Vítor & Léo e Sorriso Maroto os "discípulos".

O brega "universitário", seja "sertanejo", "forró", "pagode" ou o brega propriamente dito, por sua qualidade artística bastante duvidosa, não pode ser comparada à MPB universitária que reagiu aos primórdios da ditadura, e que representou a fase moderna da MPB dos últimos anos. Como comparar uma geração que trabalhava bem música, melodia, poesia e mobilização social, como Edu Lobo, Nara Leão, Carlinhos Lyra, Elis Regina, Zimbo Trio, César Camargo Mariano, Taiguara, Sérgio Ricardo, Germano Mathias, Sidney Miller, Gutemberg Guarabira, Wanda Sá com os seguidores da música de gosto duvidoso, que mal consegue emular ritmos brasileiros dentro de uma linha de montagem que inclui também os piores referenciais da música estrangeira?

E como comparar a postura altiva, de cabeça erguida, dos grandes artistas universitários dos anos 60 e sua surpreendente musicalidade, com a cafonice patética e medíocre de um Dário Jeans que fala de fusquinha e mostra uma boazuda vulgar posando ao lado do veículo? Adianta os cantores de "sertanejo universitário" ou "pagode universitário" falarem de forma mais articulada nas entrevistas? Ou vestirem roupas de grife, para simular "qualidade artística"? Que brasilidade que eles defendem, quando não conseguem sair de uma débil reprodução de ritmos estrangeiros ou da reciclagem de antigas expressões da música cafona? Que conhecimentos, que valores sociais, que referenciais eles trazem? Simplesmente, nenhuns.

O brega "universitário", nas suas diversas modalidades musicais, é um reflexo da crise educacional em que vivemos, dos baixos salários dos professores, do confuso programa educacional e dos problemas e contradições que envolvem sobretudo o corpo docente de nosso país. 

Da mesma forma, o brega "universitário" reflete também a crise de valores e de ideais de nossos jovens, associada à influência dominante das grandes corporações de Comunicação, que estabelece um padrão de "cultura popular" artificial a que o grande público deve seguir. E que, para manter esse mesmo padrão, dificultando a difusão de expressões mais autênticas de nossa cultura, criou-se um cenário "universitário" para a música brega, visando o lucro permanente dos empresários do entretenimento pelo apoio seguro da juventude de classes mais abastadas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LUZ, Dioclécio. Rodeio: a novidade é o boi. Extraído do endereço http://www.apasfa.org/futuro/rodeios_dep.shtml. Consultado em 31 de dezembro de 2007.

NIEMEYER, Marcos. Falta de respeito com a MPB: podridão sonora ganha status "universitário". Extraído do endereço http://cacarejadavirtual.blogspot.com/2009/10/podridao-sonora-ganha-status-de.html. Consultado em 30 de março de 2010.

POERNER, Artur. O Poder Jovem: Historia da Participação Política dos Estudantes Brasileiros. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.]]></description>
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<pubDate>Tue, 06 Apr 2010 00:00:00 GMT</pubDate>
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<title><![CDATA[São Luiz do Paraitinga é provisoriamente tombado]]></title>
<description><![CDATA[Iphan anuncia tombamento provisório de São Luiz do Paraitinga (SP)



Estão tombados em caráter provisório cerca de 400 imóveis do conjunto histórico de São Luiz do Paraitinga, município do interior do estado de São Paulo afetado há quase quatro meses por uma grande enchente que destruiu e danificou suas edificações. A notificação sobre a medida foi publicada nesta sexta-feira, no Diário Oficial da União, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Em virtude da decisão, terão de ser autorizadas todas as obras de restauração e reconstrução realizadas dentro do perímetro delimitado. Os proprietários da área têm um prazo de 15 dias para anuir ou tentar impugnar a iniciativa.

Além da poligonal submetida ao tombamento provisório, a notificação apresenta a área de entorno definida para assegurar a ambiência do conjunto tombado. O processo de tombamento efetivo do centro histórico de Paraitinga pelo Iphan já está em curso e é fundamentado em seu elevado valor histórico e paisagístico. Quando concluídas as análises, o conjunto arquitetônico tombado deverá ser inscrito nos Livros do Tombo Histórico e Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico. 

FONTE: ASCOM / IPHAN]]></description>
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<pubDate>Sat, 27 Mar 2010 00:00:00 GMT</pubDate>
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<title><![CDATA[Estado do RJ terá PAC das Cidades Históricas]]></title>
<description><![CDATA[ASSINADO O PLANO DE AÇÃO DAS CIDADES HISTÓRICAS


SÃO PEDRO DA ALDEIA É UM DOS 15 MUNICÍPIOS BENEFICIADOS PELO PAC DAS CIDADES HISTÓRICAS

Alexandre Figueiredo

O presidente do IPHAN, Luiz Fernando de Almeida e o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, assinou, no último dia 18, o Plano de Ação das Cidades Históricas do Estado. O plano tem por finalidade investir no desenvolvimento econômico e social dos 15 municípios fluminenses envolvidos, a exemplo do que o plano prevê também em outras cidades estaduais nos demais Estados brasileiros. Neste ano, um total de 173 cidades brasileiras estão incluídas no PAC das Cidades Históricas.

A cerimônia aconteceu no Palácio Guanabara, no município do Rio, e contou também com a presença dos prefeitos das 15 cidades beneficiadas. Cada município receberá investimentos na ordem de R$ 20 milhões para executar o PAC das Cidades Históricas: ngra dos Reis, Cabo Frio, Casemiro de Abreu, Duas Barras, Itaboraí, Mangaratiba, Paraty, Petrópolis, Quatis, Quissamã, Rio Claro, Santa Maria Madalena, São Pedro da Aldeia e Vassouras e a própria cidade do Rio de Janeiro.

Os investimentos são feitos a partir de projetos elaborados pelas próprias cidades, dentro de uma ação conjunta com a participação das esferas federal, estadual e municipal. O planejamento, cujas metas são elaboradas a cada ano, permitirá o envio de recursos financeiros governamentais, além de investimentos feitos pela iniciativa privada, nos projetos estratégicos feitos por cada município.

O plano visa a recuperação urbanística como um todo, numa reestruturação que envolve reparos na fiação elétrica, recuperação e conservação arquitetônica, obras em espaços urbanos que permitam acesso também aos deficientes físicos, instalação de mobiliário urbano, incluindo recuperação de edifícios degradados ou subutilizados, sinalização, melhorias na iluminação e implantação de serviço de Internet sem fio.

A recuperação de monumentos e prédios públicos inclui a adequação do seu uso para abricar universidades, bibliotecas, centros culturais, museus e outros tipos de espaços públicos. O plano também pretende fomentar as cadeias produtivas locais, dando apoio para a estruturação e efetivação de atividades locais, sobretudo aquelas relacionadas à sua tradição cultural.

Lançado em outubro de 2009, o PAC das Cidades Históricas conta com R$ 230 milhões investidos diretamente do Ministério da Cultura. O plano é organizado pelo MinC através do IPHAN junto ao Gabinete da Casa Civil, com a participação dos ministérios do Turismo, da Educação e das Cidades. O plano também conta com a colaboração da Petrobras, da Eletrobrás, do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), da Caixa Econômica Federal e do Banco do Nordeste do Brasil.

Segundo o ministro da Cultura, Juca Ferreira, a dimensão cultural precisa fortalecer a sua infraestrutura, pois é só através desta iniciativa que o país conseguirá desenvolver a melhoria da qualidade de vida da população, o aumento de seu poder aquisitivo, a circulação das mercadorias e a oportunidade de trabalho para todos, além de outros setores.

"Este programa é uma revolução no setor cultural do país. Mais de 90% dos municípios brasileiros não têm cinema. É importante que a gente compreenda a complexidade deste desenvolvimento para que não tenhamos uma visão economicista e nem simplória de desenvolvimento. É a partir desta infraestrutura do patrimônio que você capacita a nação. O Brasil tem uma das culturas mais ricas do mundo. Este ato de hoje terá uma grande importância nos próximos anos, com uma série de eventos internacionais que acontecerão aqui. Esta é a hora de investirmos nisso. Esta é uma possibilidade de o patrimônio deixar de ser um fardo e passar a ser um ativo cultural e econômico para o desenvolvimento do nosso país", acrescentou o ministro.

FONTES: IPHAN, Imprensa Nacional.]]></description>
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<pubDate>Thu, 25 Mar 2010 00:00:00 GMT</pubDate>
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